Hoje este espaço, no qual compartilho
minha incursão pelo mundo da xilogravura e da cultura popular, completa um ano
de existência ou uma volta inteira ao redor do Sol. Os aniversários são, ao
mesmo tempo, pontos de fechamento e de abertura: completa-se um ciclo, um
“giro”, e começa-se uma nova marcação do tempo.
Cumpre-se o rito de celebrar e também
de avaliar o percurso. Nesse ano, postei pouco, na cadência do possível. Aqui
partilhei minhas percepções e projeções (no sentido de representação) de ideias
e indagações escritas para compartilhar com vocês sobre as coisas que me
atravessam na arte e na existência, sem ainda assimilar a velocidade e a
voracidade do algoritmo.
Olho para o espelho e pergunto, nesse
espaço-tempo, o que mudou, de fato, no campo
da xilogravura, no lugar da mulher na
xilogravura, das artes visuais, do patrimônio cultural imaterial?
Muita luta, desde sempre, pois o debate em torno da presença feminina não como concessão, mas como direito e conquista avança, não sem deparar com obstáculos e incompreensões. Se, no cordel, já há uma coordenação no sentido de buscar reconhecimento e visibilidade para a produção feminina, na xilo, tudo ainda é muito nebuloso. São raras as mulheres cordelistas que acolhem as xilogravadoras (palavra que o Google e o Word ainda teimam em não reconhecer). Mas, se esta coesão vier, que seja sem a ilusão do acolhimento seguida do descarte, da retórica da luta pelo direito redundando em autopromoção.
| Como Daminha na Cavalhada da Agrovila 07. Anos 1990. |
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| Atividade de formação do Movimento de Mulheres Camponesas de Serra do Ramalho (2002) |
Portanto, se esse espaço completa um
ano, a luta me acompanha desde sempre. E, como já aprenderam alguns machistas
com os quais me defrontei durante as reuniões da Comissão de Salvaguarda da
Literatura de Cordel em São Paulo, jamais abaixarei a cabeça para quem quer que
seja.
Nesse meio tempo, entre a criação do
blog e as muitas atividades que desenvolvi (curadoria, viagens, oficinas,
exposições, ilustrações para livros e folhetos), pude realizar, ou melhor,
partilhar com um grupo de colegas da Literatura de Cordel e das artes a ela
associadas um sonho antigo: criamos o Instituto Cordel Sem Fronteiras (ICSF),
do qual estou presidenta, entidade que tem 80% de mulheres em sua diretoria, e cuja
principal missão é a promoção dos patrimônios culturais imateriais e a cultura
popular.
Livros novos chegaram (na medida do
possível, compartilharei todos aqui); outros estão por chegar. Integramos
diversas mulheres em muitas atividades das quais participamos ou pudemos indicar;
estabelecemos na imprensa um debate sobre a chamada Inteligência Artificial,
que, como bem afirma o neurocientista Miguel Nicolelis, de “inteligência” nada
tem.
Enfim, é importante ressaltar as
conquistas sem esconder as dificuldades para seguirmos e, eventualmente,
corrigirmos a rota.
Até quando precisaremos despender
energia e tempo naquilo que é um princípio basilar da coesão social, o direito
e garantia à reciprocidade em todos os campos? Não sei responder.
Assim, vamos contribuindo com críticas
e reflexões, elevando o nível do debate, para que, num futuro próximo, quem
sabe, possamos nos dedicar à arte por puro deleite, fruição, elevação
espiritual.
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| Confeccionando a xilogravura "Mandala Pavão Misterioso", símbolo da exposição Vidas em Cordel (Museu da Pessoa). |
Obrigada, de coração, a todas e todos
que passaram por aqui ou deixaram comentários, críticas e sugestões.



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