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“Existirmos, a que será que se destina?”

"Sofia". Ilustração interna do livro O Dragão da Maldade e a Donzela Guerreira    (Palavras, 2022)

Peço licença a Caetano Veloso para estampar no título deste texto a frase emblemática com que ele abre o clássico “Cajuína”.

Li, esta semana, um artigo sobre a “xilogravura popular”, publicado na página NE9, em 15 de setembro de 2025, movida pela curiosidade e também para ver o que mudou e o que permanece no tocante às mulheres que se dedicam a esta arte. Assinado por Eliseu Lins, o artigo Xilogravura: conheça os cinco principais mestres dessa cultura popular nordestina é uma prova cabal de como o olhar androcêntrico sobre a produção da xilogravura segue invisibilizando e, por tabela, apagando a contribuição das mulheres.

Mas vamos por partes.

Trata-se de uma lista, isto é, os cinco xilogravadores que, na opinião do autor, são os principais nomes desta arte. Eliseu Lins aponta J. Borges, Abraão Batista, Amaro Francisco, Dila e José Lourenço como os principais expoentes da xilogravura nordestina. Nada a contestar. São, de fato, referências para nós.  Em minha lista, por exemplo, entrariam Stenio Diniz, José Costa Leite e Nena Borges, esta última por seu pioneirismo e por ser inspiração para nós, xilogravadoras.

O problema não é a lista, que exprime uma opinião pessoal, mas o texto que a baliza.

Por exemplo, no trecho seguinte, há um claro erro de informação, erro histórico mesmo:

“Desde os séculos XIX e XX, quando os folhetos começaram a circular pelas feiras nordestinas, as capas eram ilustradas por xilogravuras que ajudavam a atrair leitores. Além disso, as imagens, gravadas em madeira e reproduzidas no papel, traduziam visualmente as histórias contadas em versos — fossem aventuras, romances, lendas ou críticas sociais.”

Publicamos, neste espaço, um texto mostrando a evolução da xilo no cordel, sua aceitação gradual pelos leitores, principalmente a partir da década de 1950, quando José Bernardo da Silva, que havia adquirido o espólio de João Martins de Athayde, substituiu as capas ilustradas com desenhos e zincogravuras por xilogravuras encomendadas a artistas de Juazeiro do Norte, a sede de sua editora. Mas este não é o principal problema do texto. 

Ao final, o autor informa:

“Atualmente, além dos mestres tradicionais, novas gerações de artistas vêm renovando a xilogravura, misturando técnicas clássicas com linguagens contemporâneas. Feiras, oficinas culturais e centros de arte no Nordeste desempenham papel fundamental na preservação e valorização desse patrimônio”.

Não há qualquer menção à produção feminina, embora, há um bom tempo, muitas mulheres venham se dedicando à xilogravura popular, merecendo, inclusive, uma exposição no Museu do Folclore, do Rio de Janeiro, que, não por acaso, foi batizada de Mulheres na Xilogravura

O autor acerta, no entanto, quando diz que “novas gerações de artistas vêm renovando a xilogravura”. Falta articulistas, jornalistas, cursistas, pesquisadores e até mesmo coletivos de mulheres cordelistas informarem – isso já seria um grande passo – que há mulheres, e não são poucas, na arte da xilogravura.

 

 

Comentários

  1. Xilogravura... a que será que se destina? Destina-se à mulheres talentosas, criativas, que fazem a diferença com esta técnica tão antiga qto referencial de valorização à literatura de Cordel.
    Tão atual qto necessária para reforçar a variedade das visuais/plásticas/figurativas

    A que será se destina? A identificar/reconhecer Lucélia Borges como referência/excelência na Xilogravura

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