Pular para o conteúdo principal

Livros que ilustrei: A Jornada Heroica de Maria (Melhoramentos, 2019)

Dos livros que ilustrei em parceria com Marco Haurélio, A jornada heroica de Maria é especial em mais de um sentido: foi nossa primeira parceria artística, no caso, autor/ilustradora e, também, é uma das belas histórias da tradição oral brasileira. A recriação em cordel não fica atrás: é lírica, é dramática, é épica com protagonismo feminino numa aventura de autodescoberta, de autoconhecimento. Li, lembrando do que disse a saudosa mestra Jette Bonaventure: que as histórias dos contos de fadas dizem muito mais do que dá a entender a camada mais superficial de seu enredo. E cordelistas como Marco Haurélio, intuitivamente, sabem extrair do inconsciente coletivo as mensagens que tocarão corações e mentes de leitores.

No tocante ao trabalho, foi uma delícia trabalhar com as meninas da Melhoramentos: sensíveis, acolhedoras, compreensivas. Entenderam as dificuldades, prorrogaram os prazos, deram o melhor tratamento às imagens, produzindo um livro poderoso. Eram muitas as referências, mas busquei conectar o Nordeste com as mitologias da Grécia e da Índia, ainda que o Reino do Limo Verde evocado na história exista apenas na imaginação fértil dos contadores de histórias.

Todo o carinho, da escrita à ilustração, da edição à divulgação, redundou em muitos prêmios, os primeiros que recebi em minha curta carreira como ilustradora:

    Selo Seleção Cátedra-Unesco de Leitura (Puc-Rio);

    Prêmio Altamente Recomendável (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ)

    Seleção FNLIJ para o Catálogo da Feira do Livro de Bolonha, Itália.

Na entrega do Prêmio Cátedra-Unesco, no Rio de Janeiro (março de 2020).
Com Marco Haurélio e a editora Leila Bertolazzi.

Algumas estrofes deste livro encantador, que, segundo Marco Haurélio, conheceu sua primeira versão literária no século XII, por obra da poeta Marie de France, que compôs um lai chamado “Yonec”. Lai, ensina Haurélio, é um poema narrativo semelhante ao nosso cordel, só que bem mais curto:

Meus versos viajam muito

Em busca de inspiração:

Vão até reinos distantes,

Depois voltam pro sertão,

Trazendo as flores colhidas

No Jardim da Tradição.

 

Na história que ora conto,

De amor eu quero falar.

Quem caminha nesta senda

Um dia irá encontrar

A essência verdadeira

Que brota do caminhar.


Quem a ler até o fim

Verá a perseverança

Fazer brotar a semente

No canteiro da esperança,

Pois o amor verdadeiro

É mais forte que a vingança.

 

Em um distante país,

Há tempos que longe vão,

Em um lugar afastado

De toda povoação,

Vivia uma bruxa velha

Numa pobre habitação.


Tinha esta velha três filhas,

Três seres descomunais,

Daqueles que hoje só vemos

Nos livros medievais,

Porque, se uma era feia,

A outra ainda era mais!

 

Possuíam os sinais

Da perversa natureza,

Porém, ali, muito perto

Deste antro de torpeza,

Residia uma donzela

Mais bela do que a beleza.

 

Em relação a esta moça

Havia um grande mistério,

Pois ela era visitada

Por alguém de outro hemisfério,

E a velha, muito invejosa,

Assim, saía do sério.

Foi esta jornada maravilhosa que me encantou e me propiciou participar de um dos projetos mais lindos de minha caminhada no mundo da arte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sobre silenciamentos e apagamentos

"Angela Davis". Detalhe de xilogravura de capa de livreto de Daniella Bento. Por Lucélia Borges Em minha trajetória como artista visual e pesquisadora das tradições populares, tenho me deparado com muita coisa, e o fato de ser mulher e atuar em meio dominado por homens fez meu percurso ser mais difícil e acidentado do que eu sonhava. Isso não quer dizer que, em meio a tantas tentativas de silenciamento, de desqualificação e de alienação, também não haja apoio, acolhimento, parceria e respeito. Constatei, não faz muito tempo, que entre muitas pessoas, independentemente do gênero, que se “vendem” como politizadas, combatentes dos apagamentos históricos das minorias,  impera uma discrepância acentuada entre o discurso e a prática, e a indignação, apoio e repúdio são seletivos. Descobri, inclusive, uma palavra nova, manterrupting (*) , que se encaixava perfeitamente com a situação pela qual passei, em reunião da Comissão de Salvaguarda da Literatura de Cordel de São Paulo, e pa...

Rituais da festa de São João Batista

Por: Lucélia Borges/Xilo-Mulher  Procissão de São João na Agrovila 07. Crédito da imagem: Oeste ao Vivo.  Os festejos de São João, na Agrovila 07, em Serra do Ramalho (BA), começam com a levantada do mastro, dez dias antes da data em que se celebra o Santo: o dia 24 de junho. O mastro é pintado com as cores verde, branca e vermelha, tendo no topo uma bandeira e um estandarte com a representação clássica do padroeiro, aquela em que ele aparece com feições de adolescente. Em seguida à fincada do mastro, a bandeira é hasteada, para gáudio dos participantes. Até o início dos anos 2000, toda a preparação ficava a cargo dos irmãos Manelinho e Aurelino Maciel, que integravam também a banda de pífanos, à época já bastante idosos.  A historiadora Mary Del Priore traz uma informação contrastante a respeito da levantada do mastro no período colonial quando a levantada do mastro era feita pelos jovens: “Durante os festejos de São João, [os jovens] ajudavam a erguer o mastro diante ...

“Existirmos, a que será que se destina?”

"Sofia". Ilustração interna do livro O Dragão da Maldade e a Donzela Guerreira     (Palavras, 2022) Peço licença a Caetano Veloso para estampar no título deste texto a frase emblemática com que ele abre o clássico “Cajuína”. Li, esta semana, um artigo sobre a “xilogravura popular”, publicado na página NE9 , em 15 de setembro de 2025, movida pela curiosidade e também para ver o que mudou e o que permanece no tocante às mulheres que se dedicam a esta arte. Assinado por Eliseu Lins, o artigo Xilogravura: conheça os cinco principais mestres dessa cultura popular nordestina é uma prova cabal de como o olhar androcêntrico sobre a produção da xilogravura segue invisibilizando e, por tabela, apagando a contribuição das mulheres. Mas vamos por partes. Trata-se de uma lista, isto é, os cinco xilogravadores que, na opinião do autor, são os principais nomes desta arte. Eliseu Lins aponta J. Borges, Abraão Batista, Amaro Francisco, Dila e José Lourenço como os principais expoen...