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O macaco e o cágado, um conto de Moçambique

 

Xilogravura: Lucélia Borges

O Macaco (Khole) e o Cágado (Khapa) eram amigos. O Macaco morava com sua esposa, uma filha e um filho. O Cágado morava com sua esposa e uma filha.

Certo dia, o Macaco convidou o Cágado para um almoço em família. Chegado o dia combinado, a família Khapa se arrumou e foi diretinho para a casa do Macaco, bastante contente.

Hodiiii!!!! – pediu licença o Cágado com voz bastante forte.

Eeeee!!! – respondeu a filha do Macaco.

O Macaco, que estava sentado em seu alpendre, lançou um olhar para o lado de fora, onde o caminho dava acesso à sua casa, e viu que era o seu amigo Cágado com a família. Rapidamente, chamou a esposa, que estava terminando de arrumar a mesa, e ambos foram receber as visitas, entre abraços e beijos.

Depois de alguns minutinhos de piadas trocadas entre o Macaco e o Cágado, o ambiente ficou ainda mais agradável. Como estavam famintos, sem demora, todos se dirigiram à mesa. Na verdade, eram três esteiras estendidas em separado. Uma para os homens – pais; uma para as mulheres – mães; e outra para as crianças. A comida foi servida também em separado: para os pais, para as mães e para as crianças. Havia dois tipos de comida: thakare, preferida da família Khole, e molho de tomate, a mais apreciada pela família Khapa.

Depois que todos se acomodaram à mesa, o Macaco desejou bom apetite aos comensais. A comida tinha sido servida em panelas de barro, altas demais para os cágados, que, como se sabe, têm patas curtas. Ninguém da família Khapa conseguia alcançar a comida no fundo da panela. Todos giraram, giraram, giraram em volta das panelas, tentando encontrar alguma posição que permitisse alcançar a comida, mas sem sucesso. Enquanto isso, a família Khole ia comendo, comendo, comendo, sem se preocupar com os convidados.

Depois de um bom tempo de tentativas, o Cágado abriu a boca:

– Muito obrigado, amigo Macaco. Nós estamos bastante honrados e agradecidos pelo convite e queremos retribuir. Você e sua família são nossos convidados.

No próximo sábado, venham almoçar na nossa casa.

O Macaco, ainda com a boca cheia, disse:

– Obrigado pelo convite, amigo Cágado. Com certeza, estaremos presentes.

O Cágado e sua família se despediram e foram embora, bastante aborrecidos, claro.

Chegado o sábado, a família Khole, logo cedo, se arrumou e, toda contente, foi à casa do Cágado.

Waaawa! – saudou o Macaco.

Waaawa! – respondeu o Cágado, do lado de fora da casa. Enquanto isso, a esposa e a filha do Cágado estavam terminando de arrumar a mesa.

– Olhem quem chegou! – disse o Cágado para as duas. Elas saíram e foram também receber a família do Macaco.

– Bem-vinda, família Khole! – disse o Cágado.

– Muito obrigado! – respondeu em coro a família do Macaco.

De mãos dadas, os homens conversavam entre si e as mulheres também, enquanto as crianças se misturavam, se agarravam, saltitavam e se empurravam brincando. Todos estavam contentes.

Como a comida já estava pronta, todos se dirigiram para as respectivas esteiras: uma para os pais, outra para as mães e outra para as crianças. A comida era xima com mathapa.

Rapidamente, o Cágado tomou a palavra e declarou:

– Família Khole, eis a nossa pobre comida!

– Não se preocupe, amigo. Pelo visto, está muito boa – disse o Macaco, abanando a cabeça e fazendo o gesto de quem aspira um aroma agradável. Todos caíram na gargalhada.

– Bom – continuou o Cágado –, acontece que, nesta casa, estamos sem água para lavar as mãos. Mas, ali pertinho, tem um poço. Nós já fomos lá antes de vocês chegarem. Então, por favor, podem ir lavar suas mãos. Mas, atenção: tenham o cuidado de não tocar as mãos no chão quando retornarem para cá.

A família Khole, espantada, se dirigiu ao poço. Cada bicho lavou suas mãos. Porém, na hora de retornar, nenhum deles conseguia caminhar sem se apoiar no chão. E, cada vez que sujavam as mãos, retornavam ao poço para se lavar novamente.

Xilogravura: Lucélia Borges

Tentaram muitas vezes, mas não conseguiram manter as mãos limpas, pois nenhum deles conseguia caminhar apenas com as pernas. Após tantas tentativas sem sucesso, a família Khole, envergonhada, desistiu, sem sequer passar na casa da família Khapa para se despedir. Enquanto o Macaco e sua família iam embora, o Cágado morria de rir.


Notas

Hodi! – pedido de licença.

Eeee! – resposta a um pedido de licença.

Thakare – Preparado com feijão fava, que é muito amargo e pode ser venenoso. Para eliminar a toxicidade, é necessário trocar a água várias vezes durante a cozedura. Após cozido, pode ser servido inteiro – temperado com sal –, ou esmagado; para acompanhar, usa-se preferencialmente xima de mapira, de milho ou de mandioca.

Waaawa! – Saudação.

Xima (ou upshwa) espécie de purê feito com leite de coco, água, massa preparada à base de farinha de milho e sal; servido em forma de papa seca; muito rica em carboidratos, mas com poucos nutrientes.

Conto narrado pelo professor, pesquisador e contador de histórias moçambicano, de etnia Lomwe, Artinésio Widnesse. Publicado em Ithale – fábulas de Moçambique (disponível no site da Amazon). 

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