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Novo livro do poeta Costa Senna

O poeta cearense Costa Senna lança mais um livro, Histórias por um mundo melhor, o terceiro pela Global Editora, e desta vez eu assino as ilustrações, em xilogravuras. O livro é composto por seis poemas, cada um deles voltado a temas como ética, cidadania e inclusão, discutidos com leveza, mas também com profundidade. 

Abaixo, a descrição do livro conforme publicada no site da Amazon:

"Rima que encanta, verso que ensina, literatura que transforma. Assim é Histórias por um mundo melhor, mais um trabalho primoroso do poeta, ator, compositor e cordelista Costa Senna.

Publicado pela Global Editora, o livro reúne cinco narrativas em cordel, entre fábulas, reflexões e releituras de contos clássicos, reafirmando a vocação do autor para educar e inspirar por meio das palavras.

Com apresentação de Marco Haurélio e ilustrações de Lucélia Borges, a obra navega pelo melhor da tradição oral e da literatura popular, trazendo a musicalidade do repente e o encanto da poesia rimada. Do conselho de um ancião aos mais jovens, em ‘Não pise na bola’, à fusão inusitada de personagens como Chapeuzinho Vermelho e Pequeno Polegar, Costa Senna transita entre o lúdico e o reflexivo com a maestria de quem conhece a potência das palavras.

Em ‘O leão que não queria ser rei’, inspirado em uma lenda africana, o autor brinca com as expectativas e revela a importância da humildade e da sabedoria. Já em ‘O patinho Tico nas asas da liberdade’, ecoa ensinamentos sobre responsabilidade e escolhas.

E no vibrante ‘Sarau do trava-língua’, a magia das palavras se torna um jogo de destreza e criatividade. Cearense de raiz e paulistano por adoção, Costa mistura influências que vão de Luiz Gonzaga a Raul Seixas, do repente nordestino ao rap urbano, compondo um estilo vibrante e singular.

Histórias por um mundo melhor é um convite ao riso e à reflexão, ao sonho e à consciência. Um livro que ensina sem ser professoral, diverte sem ser superficial e, acima de tudo, nos lembra que a literatura popular tem o poder de mudar o mundo – verso a verso, coração por coração".

Costa Senna. Por Lucélia Borges. 

Leia, a seguir, trechos da apresentação, assinada pelo poeta e pesquisador das tradições populares, Marco Haurélio:

"Homem de teatro, Senna levou para o cordel sua experiência na ribalta. Essa influência, no entanto, não apaga as memórias da infância nas quais misturam-se indistintamente cantadores de feira, emboladores, brincantes do boi de reis e do Cassimiro Coco (o teatro de bonecos do Ceará), bacamarteiros e pifeiros, além de ecos das procissões religiosas acompanhadas de cantos impregnados pelos mistérios que regem a vida e a morte. O cordelista é, antes de tudo, um sujeito performático, já que seu canto, mesmo fixado no papel, precisa viver na voz, seja de seu autor, seja do vendedor de folhetos, que cumpre a função que, na Grécia de outros tempos, era delegada aos rapsodos. E Senna, a princípio de forma intuitiva, e depois, meticulosamente calculada, compreendeu seu papel como autor e disseminador de literatura de cordel em ambientes urbanos, primeiramente em sua Fortaleza natal e, desde 1990, em São Paulo, onde buscou conciliar a profissão de autor com a vocação poética, nascendo desta combinação um tipo moderno de saltimbanco, ainda não plenamente estudado. 

Se o pioneiro Leandro, paraibano que se estabeleceu no Recife, e os seus conterrâneos Francisco das Chagas Batista (1882-1930)  e João Melchíades Ferreira da Silva (1869-1933) corriam os sertões bravios do alvorecer do século XX, nos lombos de animais de carga (cavalos e mulas), conduzindo nas bruacas seus folhetos, Costa Senna fez o caminho inverso: trocando o Nordeste por São Paulo, buscou as praças, os movimentos populares e, principalmente, as escolas como palcos preferenciais de suas performances para divulgação de seus cordéis mais conhecidos: “Os atropelos do português”, “O doido”, “Raul Seixas não morreu” e "Viagem por São Paulo". Abriu, assim, as portas para os que vieram depois, sem deixar de reconhecer os que o precederam, como Franklin Machado (o Machado Nordestino) e João Antônio de Barros (Jota Barros). 

A presente coletânea, com o desconcertante título "Não pise na bola!", reúne cinco histórias: um exemplo, duas fábulas, um folheto lúdico e um crossover de dois famosos contos de fadas. O primeiro poema, que dá título ao livro, traz como narrador um poeta quase centenário, que, à maneira dos griots, a partir de sua longa trajetória de vida, dá conselhos aos mais jovens. Encaixa-se à perfeição no gênero medieval das exempla (exemplos), de onde são extraídas lições com vistas a prevenir acidentes de percurso e surpresas desagradáveis. Chamados em espanhol de consejas, tais histórias costumam fazer sucesso em comunidades onde a voz dos anciãos ainda é ouvida e respeitada pelas novas gerações. A literatura de cordel traz alguns exemplos de narrativas afins, como Conselhos paternais, de José Bernardo da Silva (1901-1971), e Conselhos do Padre Cícero a Lampião, de Francisco das Chagas Batista. Segue-se “Sarau do trava-língua”, no qual se desenrola uma competição, pretextando apresentar em setilhas essa modalidade da literatura oral conhecida em todo o mundo. 

A terceira história, “O leão que não queria ser rei”, inspira-se, como é apontado no subtítulo, num conto popular africano. O conto, em versões a perder de vista, é conhecido em todo o mundo, sendo classificado, no Catálogo Internacional dos Contos Populares, como ATU 157 (Os animais aprendem a temer o homem). Mestre Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), em Contos tradicionais do Brasil, apresenta uma versão, “O touro e o homem” , na qual o touro faz as vezes do animal forte e estúpido que aprende, da pior maneira, uma lição de humildade. Todas as quatro versões tradicionais africanas documentadas provêm de Moçambique, provável centro irradiador para o Brasil, onde também se registraram quatro versões, incluindo a citada, recolhida por Câmara Cascudo, e “O leão e o bicho-homem”, recolhida por mim e incluída na antologia No tempo dos encantos (em parceria com Rogério Soares). Há, ainda, uma versão europeia do século XIII, mencionada pelos Irmãos Grimm, e outra, incluída no célebre ciclo de Renart (o Raposo). Costa Senna ressignifica o conto ao fazer do homem, genericamente antagonista da história, o rei, menos por seus méritos e mais por sua imprevidência e sua sede insaciável de poder. 

O cordel seguinte reúne duas personagens de contos de fadas, Chapeuzinho Vermelho e o Pequeno Polegar, tornadas célebres inicialmente na coletânea francesa Histoires ou contes du temps passé, avec des moralités (Histórias do tempo passado com moralidades), escrita por Charles Perrault (1628-1703) em 1697. Senna fecha esta singela coletânea com “O patinho Tico nas asas da liberdade”, um poema inspirado numa história de Rubem Alves, fábula de caráter exemplar que adverte para os riscos decorrentes da desobediência. Trata-se não de uma lição de moral, mas de uma alegoria sobre a necessidade de dosar, com sabedoria, obrigação e diversão, ou, como diria Sigmund Freud, o princípio do prazer com o princípio da realidade. O texto chama a atenção para a ideia distorcida de liberdade que, separada da ideia de responsabilidade, pode conduzir a perigos dos quais nem sempre é possível escapar.

Costa Senna, poeta que há muito atingiu a maturidade literária, alcança, com essas histórias, os pequenos e grandes leitores, logrando o notável feito de escrever um livro que pode ser lido e compreendido por todos. O raro equilíbrio desta publicação se deve à maneira sensível e respeitosa com que seu autor lida com a literatura de cordel, no que ela tem de transnacional, em seus motivos narrativos, e no que ela tem de brasileira: sem escorregar para o nacionalismo caricato, mas sem negar, por outro lado, o que nos define como povo, Senna lança mão de seu talento como contautor para marcar definitivamente o seu lugar como um dos mais criativos autores de sua geração"

Para adquirir esta obra fantástica da Global Editora, clique AQUI

Comentários

  1. Só tenho que agradecer o empenho de todos e todas profissionais que contribuíram na realização de obra.
    Gratidão

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