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Aspectos da Festa do Divino Espírito Santo

Esplanada do Santuário do Bom Jesus. Missa de Pentecostes, 2014.
Acervo: Péricles Itamar

A Festa do Divino Espírito Santo surgiu, segundo a lenda, por obra e graça da rainha Isabel de Aragão (1271-1336). Isabel, filha do rei Dom Pedro III, de Aragão, e esposa de D. Dinis, rei de Portugal. Passou a ser Rainha Santa Isabel em 1625, quando foi canonizada. Dentre as suas virtudes miraculosas está O milagre das rosas. Dedicada à caridade cristã, a rainha saía, furtivamente do castelo, levando escondido num avental, alimento para os mais necessitados. Certo dia, abordada pelo rei, seu esposo, que era contrário à prodigalidade, foi indagada sobre o que levava. Meio confusa, respondeu que eram rosas. Ele insistiu para ver. Ela abriu e, de fato, estava repleto de rosas em pleno inverno europeu.

A sua institucionalização no início do século XIV, por ocasião da construção da Igreja do Espírito Santo em Alenquer, devido à sua devoção e gratidão ao Divino Espírito Santo por ter sido atendida no pedido em forma de promessa para que cessassem as brigas entre o seu esposo e o filho. O conflito girava em torno da intenção do rei de nomear sucessor o seu filho bastardo Afonso Sanches. Como pagamento, a rainha distribuiu comida aos pobres, instituindo, assim, “o Império do Divino”, baseado na paz e na fartura para todos. A partir de então, a festa foi abraçada pelo povo português e disseminada, ao longo do tempo, principalmente a partir da imigração açoriana, por todas as colônias portuguesas.

No Brasil, ainda chamado Terra de Santa Cruz, a festa chegou no bojo do colonizador, no alvorecer do século XVI. Cascudo (1962, p. 281) nos informa que a “devoção, rapidamente propagada, tornou-se uma das mais intensas e populares”. Em épocas distintas, diversos estudiosos buscaram mapear os estados em que ocorriam/ocorrem os festejos relacionados ao Divino. No Estado da Bahia, onde concentramos o nosso estudo, somente na região da bacia do São Francisco, os depoimentos colhidos, entre moradores e estudiosos, atestam a ocorrência dos festejos do Divino há mais de um século em várias cidades. Sua importância era tal que foi determinante na escolha do título de “imperador” — e não rei, que seria mais adequado — conferido ao português Pedro de Alcântara, por ocasião da Independência do Brasil, como nos informa Cascudo (1964, p. 281): “De seu prestígio basta lembrar que o título de ‘imperador’ do Brasil foi escolhido, em 1822, pelo Ministro José Bonifácio de Andrada e Silva, porque o povo estava mais habituado com o nome do imperador (do Divino) do que com o nome de REI”.

A Festa do Divino tem como seu maior mantenedor o catolicismo popular, talvez por conta de sua problemática origem. Apesar de sua unidade no tocante aos ritos, iconografia, crenças, superstições, em diferentes locais, a festa terá sempre características próprias, que, se não destoam do conjunto, emprestam-lhe um sabor de novidade. É uma festa móvel, celebrada cinquenta dias após a Páscoa e dez dias após a ascensão de Jesus, quando se iniciam os preparativos, com a levantada do mastro e as novenas, que culminarão no dia de Pentecostes. A sua ritualística é complexa, demandando uma enorme estrutura que estabelece uma extensa rede de relações, quase uma fraternidade, entre diversos agentes envolvidos direta e indiretamente com a organização e preparativos do evento.

Imperadorzinho. Festa do Divino, Lapa, 1996.
Acervo: Péricles Itamar

Cascudo (1962), descrevendo os elementos do Império do Divino, destaca, entre eles, a Cavalhada. Uma simples análise comparativa das descrições dos elementos que compunham o Império, desde a sua chegada até os dias atuais, verifica-se a persistência de muitos deles: a representação de uma corte, com a figura de um imperador menino, o imperadorzinho, trajando manto real, coroado e de cetro na mão, a presença obrigatória do imperador (anfitrião), a exibição da Cavalhada, entre outros.

Há a necessidade de se conferir uma distinção entre os elementos constantes e as variáveis. No primeiro grupo, estão aqueles mantidos como parte indissociável do costume/ritual: a pomba como emblema do Espírito Santo, o imperador, com sua complexa indumentária, além do Império do Divino, do mastro e da bandeira encarnada. Os elementos variáveis ocorrem diante da necessidade natural de adaptação de cada localidade, dependendo dos interesses dos organizadores do evento, das condições financeiras e do engajamento dos fiéis. Apesar destas variações, predominam os costumes herdados e mantidos com a preservação dos valores sobre as reconfigurações de significados que norteiam as identidades e o sentimento de pertença.

Há que se levar em conta os contextos nos quais a festa se tradicionalizou para se entender a permanência de alguns elementos e a inserção de outros. Nesses processos de mobilidade cultural entram fatores de assimilação mais complexos, que vão além da simples noção de “exportação/imposição” de um modelo. Escrevendo no século XIX, Melo Moraes Filho já enxergava essas diferenças:

"Não abandonando nunca as suas terras natalícias, mas viajando em nossos climas, esses folguedos impregnaram-se aqui de aromas sutis, expandiram-se em manifestações mais variadas, tendo como figurantes troncos primitivos ou seus descendentes imediatos, que deviam entrar por algumas coisas na metamorfose do molde metropolitano, sempre uniforme e monótono nos Açores, Coimbra, etc."

No Brasil, a festa adquire outros padrões com inúmeras variações e apropriações, possibilitadas pelo processo de mestiçagem, pelas relações de poder e pela grande extensão territorial, que favorecia o isolamento. A matriz religiosa, que também é cultural, europeia, se não se desfigura, reconfigura-se, mantendo sua estrutura básica, como já foi dito, mas se abrindo a outras possibilidades, inserindo-se no quadro geral pincelado por Marlyse Meyer:

"Aquela cultura que já ia fragmentando na metrópole aqui se espalhou pela vastidão de um território que impunha, como diz Bastide, ao colonizador português um gênero de vida oposto de ao do país de uma lógica e de uma memória fragmentadas ao longo do tempo pelas desbaratadas vivências de um povo que foi se constituindo a duras penas e não pôde, como na Europa, viver secularmente agarrado ao mesmo chão, mas foi sempre levado pelas injunções das formas dominadoras de ocupação do solo a transitar em perenes transumâncias. (2001, p. 148)". 

Nota: Esse texto foi extraído da minha dissertação de mestrado em Estudos Culturais, Inimigos Fiéis: rupturas e permanências nas Cavalhadas do Médio São Francisco - BA, defendida na Universidade de São Paulo em 2021. 


Para acessar a íntegra, clique A Q U I



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